Emagrecer perdendo menos massa magra: o que mostram dois medicamentos em estudo?

Adulto com balança e halter representando preservação muscular durante o emagrecimento

Perder peso pode melhorar a saúde metabólica, a mobilidade e a qualidade de vida. Mas existe uma questão importante nesse processo: nem todo peso perdido corresponde à gordura.

Dependendo da velocidade do emagrecimento, da alimentação, do treinamento e das características individuais, também pode ocorrer redução de massa magra.

Agora, dois medicamentos experimentais estão sendo estudados justamente para tentar mudar essa composição: apitegromabe e bimagrumabe.

Eles não são hormônios anabolizantes. São anticorpos monoclonais que atuam em mecanismos responsáveis por limitar o desenvolvimento muscular.

Os primeiros resultados são promissores, principalmente para preservar mais massa magra enquanto a pessoa emagrece. Entretanto, isso ainda não significa que esses medicamentos já tenham demonstrado ganho de força ou reconstrução muscular depois do emagrecimento.

Por que a massa muscular importa no emagrecimento?

Quando pensamos em emagrecer, a balança mostra apenas a mudança total de peso. Ela não informa quanto dessa diferença veio da gordura, da massa muscular ou da água corporal.

Preservar músculos durante o processo é importante porque a massa muscular participa de diferentes funções:

  • movimentação e autonomia;
  • força e capacidade funcional;
  • controle da glicose;
  • saúde óssea;
  • gasto energético;
  • manutenção do resultado no longo prazo.

Treinamento de força, consumo adequado de proteínas, sono e acompanhamento individualizado continuam sendo os principais recursos para proteger a massa magra.

Outra linha de pesquisa, ainda em animais, investiga a reparação muscular ligada à enzima 15-PGDH. Ela não deve ser confundida com um tratamento disponível para pessoas.

Os novos medicamentos estão sendo pesquisados como uma possível estratégia adicional — não como substitutos desses cuidados.

O que é o apitegromabe?

O apitegromabe é um anticorpo monoclonal desenvolvido para bloquear seletivamente a ativação da miostatina.

A miostatina é uma proteína produzida pelo organismo que funciona como uma espécie de freio natural para o crescimento muscular.

O medicamento já vinha sendo estudado em doenças neuromusculares. Mais recentemente, pesquisadores avaliaram se ele poderia reduzir a perda de massa magra associada ao tratamento da obesidade.

O estudo com apitegromabe e tirzepatida

No ensaio clínico EMBRAZE, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade foram tratados com tirzepatida e receberam apitegromabe ou placebo durante 24 semanas.

A perda total de peso foi semelhante entre os grupos. A diferença apareceu na composição corporal.

As pessoas que receberam apitegromabe preservaram aproximadamente 1,9 kg adicionais de massa magra. Isso representou cerca de 54,9% menos perda de massa magra em comparação com o grupo de controle.

O resultado sugere que o medicamento pode fazer com que uma proporção maior do peso perdido venha da gordura.

Mas há uma distinção importante: o estudo mostrou preservação de massa magra, não ganho comprovado de força ou melhora da função física.

O que é o bimagrumabe?

O bimagrumabe também é um anticorpo monoclonal, mas atua de maneira diferente.

Ele bloqueia receptores relacionados à atividade da miostatina e de outras proteínas que limitam o desenvolvimento muscular.

Essa ação despertou interesse porque o medicamento pode influenciar simultaneamente a massa muscular e a gordura corporal.

Bimagrumabe associado à semaglutida

O ensaio clínico BELIEVE avaliou 507 adultos com sobrepeso ou obesidade.

Os participantes receberam bimagrumabe, semaglutida, a combinação dos dois medicamentos ou placebo.

A combinação produziu uma mudança mais favorável na composição corporal do que a semaglutida isoladamente: uma proporção maior do peso perdido veio da gordura, com maior preservação da massa magra.

Mesmo assim, houve pequena redução de massa magra no grupo da combinação. Portanto, não seria correto afirmar que o tratamento eliminou completamente a perda muscular.

Também ainda não está demonstrado que essa diferença na composição corporal resulte em mais força, mobilidade ou proteção contra fragilidade no longo prazo.

O bimagrumabe pode aumentar a massa magra?

Um estudo anterior avaliou o bimagrumabe isoladamente em adultos com obesidade e diabetes tipo 2.

Após 48 semanas, o grupo tratado apresentou:

  • redução importante de gordura corporal;
  • diminuição da cintura e do peso;
  • aumento modesto da massa magra.

Esse resultado ajuda a sustentar o interesse no medicamento como possível agente de recomposição corporal.

No entanto, foi um ensaio relativamente pequeno e realizado em uma população específica. Ele não comprova que o bimagrumabe possa ser utilizado para recuperar músculos rotineiramente depois do emagrecimento.

Esses medicamentos são hormônios?

Não.

Apitegromabe e bimagrumabe são anticorpos monoclonais. Eles não são testosterona, esteroides anabolizantes ou reposições hormonais.

Apesar disso, “não ser hormônio” não significa que sejam simples, isentos de riscos ou indicados para uso estético.

São medicamentos biológicos experimentais, estudados em ambientes controlados e com critérios específicos de inclusão e acompanhamento.

O que os estudos permitem afirmar hoje?

As evidências iniciais permitem considerar que:

  • apitegromabe pode preservar mais massa magra durante o emagrecimento com tirzepatida;
  • bimagrumabe pode melhorar a proporção entre gordura e massa magra quando associado à semaglutida;
  • bimagrumabe isolado já apresentou aumento modesto de massa magra em uma população específica;
  • medicamentos direcionados ao músculo podem, futuramente, complementar tratamentos da obesidade.

Mas ainda não permitem afirmar que:

  • esses medicamentos recuperam músculos depois de qualquer emagrecimento;
  • o aumento ou a preservação da massa magra produz necessariamente mais força;
  • os benefícios permanecem por muitos anos;
  • sejam alternativas disponíveis ou aprovadas para ganho muscular;
  • possam substituir exercício, alimentação e acompanhamento médico.

O futuro do tratamento pode olhar além da balança

Durante muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade foi avaliado principalmente pelo número de quilos perdidos.

Os estudos com apitegromabe e bimagrumabe apontam para uma possibilidade diferente: buscar não apenas menor peso, mas uma composição corporal mais favorável.

No futuro, talvez seja possível associar medicamentos para redução de gordura a estratégias capazes de preservar ou recuperar melhor os músculos — sem recorrer a hormônios anabolizantes.

Por enquanto, a mensagem mais segura continua sendo esta: emagrecer com qualidade importa tanto quanto emagrecer.

Preservar músculos exige planejamento, exercício de força, alimentação adequada e acompanhamento individualizado. Os novos medicamentos podem se tornar aliados, mas ainda precisam demonstrar segurança, funcionalidade e benefício clínico no longo prazo.

Quer entender quais estratégias fazem sentido para seu contexto? Uma avaliação individualizada considera composição corporal, rotina, alimentação, treinamento e saúde metabólica — sem reduzir o tratamento ao número da balança.

Referências

  1. Apitegromab preserves lean mass in adults with overweight or obesity receiving tirzepatide. Nature Medicine, 2026. PubMed PMID 42260100.
  2. Bimagrumab and semaglutide alone or in combination for the treatment of obesity: a phase 2 randomized clinical trial. Nature Medicine, 2026. PubMed PMID 41772149.
  3. Heymsfield SB, et al. Effect of Bimagrumab vs Placebo on Body Fat Mass Among Adults With Type 2 Diabetes and Obesity: A Phase 2 Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open, 2021. DOI 10.1001/jamanetworkopen.2020.33457.